terça-feira, 20 de maio de 2014

Salvação e perdição

Às vezes penso: é bom que não haja além, pois se houver há mais chance em minha religião de ser condenado que de me salvar. Mas depois me lembro que um tal pensamento leva a concluir que, não havendo nada, não haverá também amor, nem o belo, o bom e o verdadeiro, que só teriam uma existência imperfeita aqui na terra. E não posso decidir.
Igualmente se diz que recebemos graças suficientes para nossa salvação durante a vida e que nossa aceitação ou negação delas é que define nosso destino eterno. Mas onde encontrar o limite a partir do qual sou livre para escolher e não tenho uma carga insuportável de exigências naturais me contaminando o livre arbítrio? Com este limite conhecido, eu saberia, também, em que pé me encontro em minhas negações e aprovações. O homem não tem pleno conhecimento, ele tateia na penumbra, ainda que tenha fé; tem diante de si relatos de inspirações e de alguns supostos milagres, que algumas filosofias anti-sobrenaturalistas tentam desconstruir como um discurso; mas a história inteira lhe é desconhecida, pelo menos até o Juízo. Como decidir nestas condições? Seria só confiar uma resposta perfeitamente humana? Não seria descartar nessa resposta muito do que de mais nobre há em nossa natureza humana? Por que Deus se satisfaria somente com isso? O homem nasceu para amar, mas antes para inteligir.
Também penso em como é frustrante, para quem está investigando as várias religiões para escolher uma ou nenhuma, antes de dar o passo definitivo, perceber que a nossa, a católica, afirma que a maioria se dana e só uma minoria estatística se salva. Ele tem todo o direito de ponderar seriamente: “Que Deus é este que não se importa que seus filhos adotivos se percam e coloca Seu respeito ao livre arbítrio acima da condenação deles ao fogo eterno? Que importa se com isso as almas salvas tenham um valor infinitamente maior que as outras que Ele mesmo criou, se do outro lado essas criações que Ele amou e criou estão descartadas, destruídas para sempre em um sofrimento sem fim, maior que qualquer punição razoável teria exigido? As respostas dos teólogos medievais, de que como o ofendido é infinito a punição também deve ser infinita, não percebe que um Deus onipotente sentir-se ofendido e exigir de uma criatura, que é praticamente um nada e nada pode contra Ele, que sofra indizivelmente pela eternidade como restituição do que teria tirado dele e Ele teria perdido, sendo que perder é coisa impossível para um Deus, e tirar de Deus mais impossível ainda para uma criatura, é pedir do crente que acredite em um Deus mesquinho e vingativo, cuja justiça não diferiria absolutamente em nada da justiça dos antigos deuses pagãos, tão cheios de defeitos e tão humanos. Além disso, o número maior das almas que se danam não coloca o resultado dessa batalha a favor do diabo contra Deus? Minhas chances de salvação são menores aqui que em outras religiões que já estudei, como por exemplo as que pregam vidas sucessivas, onde todos ao final se salvam, muito embora uns mais rápido que outros.”
O incrédulo assim se afastaria da nossa religião com temor e tremor e nunca mais iria querer se reaproximar de nossas doutrinas e dogmas. E depois nos lamentamos que a impiedade aumente no mundo e cresça o número de ateus ou indiferentes, quando a esperança que nossa religião promete é no fundo uma perdição!